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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Projeto de moda com deficientes muda rotina de alunos em Sobradinho


Aprendizes da diversidade mostra os frutos da iniciativa
Integrantes do Fashion Inclusivo, em desfile da escola: pessoas de várias idades e com diferentes características participam da iniciativa

Encontrar beleza nas singularidades é tarefa para olhos raros. A sensibilidade da pedagoga Angela Ferreira a fez enxergar mais longe. Ao ver os outdoors de Sobradinho, a professora sentiu falta de pessoas com deficiência representadas neles e no universo da moda. Ela desafiou o padrão de beleza ao promover um desfile inclusivo com estudantes da escola em que lecionava à época, o Centro de Ensino Especial de Sobradinho. Levou cerca de 30 alunos para desfilar na passarela, em um shopping da cidade, como forma de celebrar o encerramento do ano letivo, em 2011.

A iniciativa tomou proporção inesperada. Conquistou a atenção da mídia, passou a se chamar Fashion Inclusivo e os desfiles tornaram-se frequentes. As crianças e jovens abriram semanas de moda em Brasília e outros eventos, até mesmo fora da cidade. “Na nossa estreia, foi muito emocionante ver mais de 300 convidados aplaudindo a capacidade de pessoas com autismo, Síndrome de Down, paralisia infantil e tantas outras deficiências. A gente não esperava tanto apoio”, lembra Angela. Ela, ao lado dos pais dos estudantes, briga por patrocinio e por oportunidades. No próximo ano, o Fashion Inclusivo vai desfilar no Fórum Mundial de Direitos Humanos, na Argentina. Eles ainda não têm o dinheiro necessário para garantir passagens, hospedagem e outras necessidades para toda a equipe, mas acreditam no sonho.

Hoje, 4 anos depois, o Fashion Inclusivo cresce a cada dia. Ganhou força e transformou a vida dos participantes. Levou o Projeto de Lei nº 1.781 de 2014 à Câmara Legislativa do DF (CLDF), para garantir a representatividade de pessoas com deficiência em campanhas publicitárias de órgãos da administração pública direta ou indireta. O texto prêve que 5% das pessoas em uma propaganda governamental tenham algum tipo de deficiência. O deputado Roberio Negreiros assina a proposição, que está na Comissão de Assuntos Sociais. A intenção é valorizar essas pessoas e garantir a elas campo de trabalho como modelo.

Benefícios

A dificuldade em fixar o olhar e em manter a cabeça erguida não é apenas simbólica para uma parcela das pessoas com deficiência. A depender da limitação física, uma das consequências pode ser a hipotonia (diminuição do tônus muscular e da força). Caminhar com confiança é exercício também de autoestima. Giovanna Pinelli, 6 anos, ganhou mais autonomia, depois de se tornar modelo do Fashion Inclusivo. Sua postura corporal melhorou e os passos tornaram-se mais seguros. A fala também foi desenvolvida, além da sociabilidade e da disciplina adquiridas. “As mudanças no comportamento da Gigi e os benefícios físicos são muito nítidos. Pessoas com síndrome de Down tendem a ganhar muito peso, o que pode ser ruim para a saúde. O trabalho como modelo ajuda a manter uma alimentação mais saudável, ensina a cuidar do próprio corpo de várias maneiras”, afirma a mãe de Giovanna, Cleo Bóhn, 49 anos.

A iniciativa de enviar um projeto de lei à CLDF sobre a valorização da imagem de pessoas com deficiência foi de Cleo. Giovanna participa de várias seleções e tem conseguido trabalhos como modelo. A mãe preocupa-se em garantir um futuro profissional para a filha. “No mais recente teste do qual participamos, ela concorreu com 2,300 mil pessoas sem deficiência e ficou entre os 180 escolhidos para fazer parte da agência de modelos. A expectativa é conseguir novos testes, mas a escola é sempre prioridade. Só pode participar do Fashion Inclusivo quem tem boas notas. Já passamos por situação de escolas rejeitarem a Gigi por conta da síndrome de Down e até de alguns pais não quererem que os filhos estudem com ela. Ser modelo é uma atividade que faz muito bem à autoestima”, afirma Cleo.

Yasmin Rodrigues, 6 anos, é companheira de passarela de Giovanna. Ela também tem síndrome de Down. É igualmente vaidosa e gosta de se cuidar. O momento da maquiagem é um dos favoritos da menina, antes dos desfiles. “O Fashion Inclusivo só trouxe coisas boas para a nossa vida. Até o jeito de andar da Yasmim mudou bastante. A expectativa de viajar para se apresentar em outra cidade, de andar de avião, é muito legal também”, diz Izabel Rodrigues, 43 anos, mãe de Yasmim. Muitas vezes o Fashion Inclusivo precisa brigar para ser aceito. “Nem todos gostam de ter a nossa presença. A maioria dos lugares não tem acessibilidade e a nossa participação pode gerar trabalho. Já tivemos de erguer modelos em cadeiras de roda com nossos próprios braços. A gente não desiste diante das dificuldades”, relata Cleo Bóhn.

Matheus Shamps, 21 anos, é modelo e se locomove em cadeira de rodas. Participar do projeto o fez sentir mais confiante sobre a própria aparência. O desempenho na escola melhorou e o círculo social aumentou. Há sete meses, Matheus começou a namorar Izabella, 22 anos, também modelo do Fashion Inclusivo. “Talvez eu não tivesse confiança para abordar uma garota, antes de desfilar. Eu me sinto muito bem comigo mesmo, hoje em dia. Aprendi a me arrumar melhor, a cuidar de mim e dos outros”, avalia. As notas de Matheus, que está no ensino médio, melhoraram depois desse estímulo extracurricular.

Gustavo Mendes, 26 anos, tem baixa visão. Mesmo assim, escolhe as próprias roupas no dia a dia e para os desfiles. “Peço ajuda à minha mãe para identificar as cores, mas o estilo quem dita sou eu”. Ele estuda publicidade e tem noção dos desafios que encontrará no mercado de trabalho, nessa profissão que exige tanto da visão. Mas aprendeu a acreditar na transposição de limites, apesar das dificuldades, uma lição importante reforçada por Angela a seus alunos no Fashion Inclusivo. “Ver estudantes e suas famílias acreditando no próprio potencial é a realização de toda uma vida. É muito difícil conciliar escola, fisioterapia, tratamentos e desfile, mas vale a pena. Todo esforço é recompensado”, afirma a professora, que hoje é pedagoga do CED 3 de Sobradinho, onde o projeto continua.


Fonte Correio Braziliense - 6/09/2015 -8h05min

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