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terça-feira, 8 de novembro de 2016

COLUNA TEXTOS & TEXTOS por Geraldo Lima

TRÊS MOMENTOS DIANTE DA NATUREZA

 

(*) Geraldo Lima
Os papagaios voltaram, três barulhentos seres verdes pousando ora na palmeira do quintal do vizinho, ora num arbusto perto do nosso muro. Imagino que seja um casal e o outro, sempre à parte, como que banido, alguém que esteja sobrando na história. Mesmo assim dialogam entre si em grande algazarra; só não se pode saber se amigavelmente ou se num embate verbal histérico para amedrontar o oponente. Às vezes dão a impressão de serem pássaros criados em cativeiro postos de repente em liberdade que, por isso mesmo, não se deram conta ainda do imenso risco de continuarem assim tão próximo do habitat dos humanos. Outra hipótese:  o solitário seria um filhote, em fase de se virar sozinho na vida, e o casal, os pais tentando encorajá-lo. Ou então, selvagens e em pleno vigor da juventude, tenham vindo até aqui, ao condomínio e adjacências, em busca da antiga área de reprodução da sua espécie. Por azar, talvez daí a gritaria de ira e protesto, deram conosco ocupando esse seu espaço sagrado, nós os seres sempre, sempre invasivos.

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Tenho mantido acesas as luzes do quintal [duas fixadas no muro] como estratégia para manter a horda de insetos entretida longe do interior da casa. Ficam lá, estáticos, abduzidos, grudados na pele rugosa do muro feito uma coleção de espécies raras, dessas de encher os olhos de qualquer entomólogo. Mas há os que, reféns de uma alegria desesperada, esvoaçam desordenados ao redor da lâmpada, e é tão frenético o encanto que não tardam a ir ao chão.

Das lições, a mais exata e severa: a luz, em demasia, cega e alucina.

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Acordar de manhã e ver o vento vergando a haste das plantas, sacudindo a copa dos arbustos e das árvores imensas, num jeito de festa ou brincadeira, é coisa que me arrebata. Para mim, ele é um desses mistérios maiores do mundo, ainda que a Ciência explique tudo e aqueles de fé digam convictos: é o sopro de Deus. Eu, que tangencio os desertos, apenas contemplo e me encanto.

 
(*) Geraldo Lima (foto) é escritor, dramaturgo, roteirista e colabora com o Jornal de Sobradinho.

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