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quarta-feira, 3 de maio de 2017

ARTIGO por Henrique Matthiesen

  
Cemitério de soberba.


A existência humana é constituída em suas gêneses de virtudes e enfermidades. Não há, dentre a espécie terna, os desprovidos destes dois paradigmas que os caracterizam.

Dentre as iniqüidades mais deletérias que carregamos em nosso arcabouço de enfermidades está o pecado da soberba, correlatado com a nutrição de nosso orgulho no mais infame complexo de superioridade, que normalmente esconde nossas mais densas angústias. Sinônimos da soberba encontramos a arrogância, a vaidade, o orgulho.

Esses adjetivos contraproducentes de ativismo prepotente são a face mais perversa da vaidade. A busca irrefletida de um merecimento indevido é umas das chagas mais maléficas destas personalidades adoentadas.

O exagerado cuidado das aparências como objeto de colher sentimentos infecundos de arrebatamento, galanteios, ou mesmo de inveja, expressa a ostentação tola da exibição de seu modo de vida, de suas habilidades sociais, físicas, intelectuais ou mesmo de suas futilidades.

Outro aspecto correspondente à soberba é a dificuldade quase insolúvel de uma admissão de erro, afinal, dentre os peculiares sintomas dos acometidos desta formação é a não admissão de fraquezas que expressam a síndrome venenosa da covardia. Todo soberbo tem um alto grau de pusilanimidade.

Dentre a reflexão sobre a soberba, muito nos tem a ensinar a mitologia. Somos os heróis e bandidos, os malditos e os benditos, os virtuosos e a intemperança de nossos próprios destinos. Os códigos a serem decifrados, do entendimento do mundo, estão nas relações humanas repletas de preconceitos, incompreensões, ódios e enfermidades.

As históricas lendas e contos, a jornada do mundo oculto, as batalhas dos deuses, trazem ensinamentos da mais apurada filosofia reveladora da mente humana, e suas sinuosidades multifacetadas.

Narciso, por exemplo, em sua paixão de si mesmo é o retrato da transitoriedade do estonteante, do sublime, do estupendo, do belo e da soberba.

Prisioneiro de seu amor próprio traz o veneno da inaptidão de ver o efeito que provoca nos outros.

Ele é intocável, pensa somente em si. Expressão da vaidade humana do eu, o mito Narciso morre embriagado pela sua soberba transvertida de beleza. Derivado do vernáculo grego “narke” tem em sua significação o entorpecido, (origem da palavra narcótica), que encontra Narciso morto entorpecido de overdose de si.

O livre-arbítrio está posto em nossas existências. Dá-nos a oportunidade de potencializar nossas virtudes ou nossas enfermidades.

Ser soberbo é uma escolha, uma opção, um modo de vida.

Entretanto, diferente da mitologia, do mundo filosófico, o homem é um ser finito que traz a inexorável constatação de que um dia, independente da classe social, do estudo, do dinheiro, iremos morrer.

E aí, estaremos definitivamente num cemitério de soberbos.

Fonte: Henrique Matthiesen (foto) /Bacharel em Direito

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