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segunda-feira, 8 de maio de 2017

COLUNA TEXTOS & TEXTOS por Geraldo Lima

ADEUS A BELCHIOR

Por Geraldo lima


E lá se foi Belchior – agora, definitivamente. Se havia sumido de repente, em 2007, deixando todos perplexos, fãs, amigos e familiares, sabíamos, no entanto, que a qualquer momento poderia voltar e encher de novo teatros e ginásios com seu canto agudo e forte, como o fez no Ginásio de Esportes de Sobradinho, se não estou enganado, numa das Temporadas Populares.  No dia 29 de março, porém, essa esperança morreu. O cantor cearense, autor de músicas magistrais como “Apenas um rapaz latino-americano”, “Como nossos pais”, “A palo seco”, “Paralelas”, e tantas outras mais, partiu de vez para o andar de cima, como alguns costumam dizer.

Além da voz grave e reverberante, o que me chamou a atenção nas canções de Belchior foram as suas letras. Mais precisamente a sua capacidade de dizer, nessas letras, coisas contundentes e corajosas. Imagine que, depois de toda a revolução sexual dos anos sessenta, do movimento hippie, do feminismo em andamento, ele ousa dizer, em 1976, na música eternizada por Elis Regina: “Que apesar de termos/Feito tudo o que fizemos/Ainda somos os mesmos/E vivemos/(...) /Como os nossos pais”. Ter a coragem de se contrapor, de modo crítico, ao que havia cantado Caetano Veloso [ainda que com ironia] na sua música Divino maravilhoso, ao dizer, em Sou apenas um rapaz latino-americano: “Mas sei que nada é divino, nada, nada é maravilhoso”. Já em Alucinação, sem medo de contrariar os que cultivam algum misticismo ou buscam na cultura oriental um modo de suportar o cotidiano, ele diz, delimitando bem a matéria da sua poética musical: “Eu não estou interessado/Em nenhuma teoria/Nem nessas coisas do oriente/Romances astrais/A minha alucinação/É suportar o dia-a-dia/E meu delírio/É a experiência/Com coisas reais”. Era do real, da vida bruta do dia a dia, que ele extraía sua música, daí que essa sua música, às vezes lancinante, densa, irônica, nos diga tanto, signifique tanto para quem aprende a ouvi-la com apreço.

Foi-se então o bardo, o cantor/compositor que enriqueceu mais ainda, com suas canções geniais, o repertório da música popular brasileira. Valeu, no entanto, sua jornada por aqui, mesmo com os percalços dos últimos anos. Pena mesmo é não poder ouvi-lo mais ao vivo. 


(*) Geraldo Lima (foto) é escritor, dramaturgo, roteirista e colabora com o Jornal de Sobradinho.

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