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Secretaria de Estado da Casa Civil - DF

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

COLUNA TEXTOS & TEXTOS


INSETO

 

(*) Geraldo Lima

Um inseto escala atônito o vidro da porta que dá para a sacada. Ele sobe, ágil e aflito, para dar em lugar algum; depois desce, até topar com o limite do piso, e então se apavora, ameaça um voo ao mesmo tempo em que emite um som forte, de motor ligado, mas querendo falhar. Sobe de novo, movendo agilmente suas pernas longas e finas.

Poderia ser Gregor Samsa [protagonista da novela A metamorfose, de Franz Kafka] já de posse do domínio completo das suas perninhas, mas o inseto em que ele se transformou não tem asas: suas "costas duras como couraça" [num primeiro momento] não lhe permitiriam subir leve e rápido assim pelo vidro. O desespero pode ser o mesmo do personagem de Kafka, tentando escapar do quarto e do pesadelo em que se vê preso. Esse zumbido pode ser o mesmo da voz que Gregor Samsa tenta articular para se comunicar [em vão] com seus familiares. Não sei que inseto é este. Não é uma mosca [se for, é gigante], tampouco um marimbondo [me parece rechonchudo demais]. Um tipo de vespa, será?

Agora se meteu entre o vão de um vidro e outro, mas sem chance de encontrar uma saída: a porta está semifechada e por ali não há passagem. Diferentemente dos que cercam o Gregor-inseto, devo ajudá-lo a escapar desse espaço liso e, provavelmente, infinito a partir da sua ótica de inseto. Depois de ler Kafka, essa visão do ser [seja ele qual for] encalacrado nos labirintos do absurdo nos parece intolerável.


(*) Fonte: Geraldo Lima (foto) é escritor, dramaturgo, roteirista e colabora com o Jornal de Sobradinho.

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