Pesquise neste blog

terça-feira, 20 de outubro de 2015

SAÚDE: AVC


Mulher sofre AVC e é "adotada" por voluntárias de rede de combate ao câncer

Mulher que viajava com o marido e a filha da Bahia para Minas Gerais tem um AVC próximo a Brasília. Sem parentes ou conhecidos na cidade, família é adotada por voluntárias da Rede Feminina de Combate ao Câncer, que atua no Hospital de Base


(*) Roberta Pinheiro

Até o socorro encontrar o local onde a família estava, passaram-se cerca de três horas. 


Uma família de Irecê, interior da Bahia, faz as malas e, em busca de emprego, pega um ônibus com destino a Patrocínio, em Minas Gerais. Expulsos da terra natal pela crise que assola o país, Joscelino, Claudia e Maysa foram acolhidos, em Brasília, pelo projeto Beija-Flor, da Rede Feminina de Combate ao Câncer. O encontro aconteceu depois que Claudia sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) no meio da viagem, passou por três unidades de saúde, que não tinham condições de recebê-la, até chegar ao Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), onde atuam as voluntárias da Rede.

Criada em 1996, a associação Rede Feminina presta assistência a pacientes com câncer, mas também a outros que chegam ao hospital precisando de atenção. Caso de Claudia e sua família. Há mais de um mês, a mulher está em tratamento na capital para acompanhar as possíveis sequelas do AVC. Hoje, os laços que uniram baianos e brasilienses ultrapassam o conceito de solidariedade e alcançam status de parentesco. “Agora, fico com o coração apertado em seguir viagem para Patrocínio”, comenta Joscelino.

Diante de um cenário nada promissor na Bahia, o agricultor Joscelino Jesus da Cruz, 46 anos, entrou em contato com um primo que mora em Patrocínio e decidiu se mudar para a cidade mineira. Reuniu a mulher, Claudia Bastos da Cruz, 45, e a filha, Maysa Bastos da Cruz, 5, e seguiu viagem. Ao todo, seriam percorridos mais de 1.400 quilômetros de ônibus. No entanto, um AVC interrompeu os planos da família. “Acho que a gente estava a uns 200 quilômetros de Brasília, quando ela (Claudia) teve a crise. Paramos o ônibus, chamamos os Bombeiros e fomos em busca de atendimento”, relembra o agricultor.

Até o socorro encontrar o local onde a família estava, passaram-se cerca de três horas. Em seguida, um dia inteiro até a chegada ao HBDF. A equipe dos Bombeiros tentou, sem sucesso, atendimento em Vila Boa (GO), município mais próximo naquele momento, em Planaltina (DF) e em Sobradinho (DF). “Falavam que não tinham condições de recebê-la. Não havia equipamento, recursos, leitos”, relembra Joscelino. Claudia deu entrada no hospital de Brasília em 5 de setembro. Ali, começaram os vários exames para descobrir a causa do AVC. “Até então, só tinham visto que ela teve uma pequena alteração no coração, mas, aqui, os médicos descobriram que minha mulher tem a doença de Chagas.”

Enquanto isso, como nenhuma criança pode ficar em ambiente hospitalar e a família não tinha conhecidos em Brasília, Maysa foi levada pelo Conselho Tutelar. “Deu aquele aperto no coração. Estávamos eu e ela chorando muito. Será que vão tomar a minha menina?”, questionou Joscelino, agarrado à filha. A criança não se adaptou. Andava triste e não brincava. “Como não deu certo, tentei deixar a Maysa com a família de um outro paciente, que estava no mesmo quarto que a Claudia. Fizemos a documentação, tudo direito. Mas ela também não se adaptou”, relembra. Foi naquele momento que Joscelino conheceu a Rede Feminina de Combate ao Câncer. “Uma senhora me viu chorando e veio conversar comigo. Ela disse: pode trazer sua menina para cá, que tomamos conta dela.”

Em busca de amparo

Na cabeça do agricultor, medo e desespero coexistiam. Enquanto a mulher estava em avaliação médica, ainda sem falar nem abrir os olhos, ele precisava de ajuda para cuidar da filha. No meio do turbilhão, uma das mulheres de camiseta rosa do HBDF levou Joscelino para conhecer Vera Lúcia Bezerra da Silva, coordenadora das voluntárias da Rede. “Estava na minha sala separando as fichas de pacientes para escolher uma para participar do projeto Beija-Flor, quando ele chegou, e eu perguntei: O senhor é minha missão? Ele respondeu que sim”, narra Vera. Daquele momento em diante, um aperto de mão celou uma relação de amizade e confiança.

Vera e as outras voluntárias acolheram aquela família. Elas acompanham e ajudam em todos os procedimentos. Seja dentro do hospital, seja fora dele. Maysa foi morar na casa dos pais de Vera e voltou a brincar como qualquer criança da sua idade. “Meu pai todos os dias liga para o Joscelino, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente”, conta Vera, ao descrever o laço que se criou entre eles. A criança já saiu para conhecer Brasília, visitou a Catedral e descobriu um mundo completamente novo: cinema e sanduíche. “A identificação com o pessoal da Rede foi impressionante. Sou muito grato a tudo que estão fazendo pela minha família. Já nos ajudaram com os exames, com os medicamentos”, comenta o agricultor.

A pequena Maysa é o sorriso da família. Enquanto o pai não sai do lado da esposa, ela corre pelo quarto do hospital, come o doce da sobremesa e, claro, cuida de Claudia. “Pai, minha mãe quer água”, interrompe a entrevista. Claudia ainda não tem previsão de alta. Apesar de ter se recuperado bem do AVC, o cardiologista pretende repetir alguns exames para garantir que está tudo bem. Até o momento, ainda não se sabe exatamente quais foram as sequelas do acidente. A mulher está com o lado direito do corpo paralisado, mas já balbucia algumas palavras, interage e come normalmente. “Foi um momento trágico. Achei que ela fosse morrer”, relembra Joscelino, com os olhos cheios de água. “Mas, hoje, ela está bem, graças a Deus. Tivemos um bom tratamento das pessoas do hospital e fizemos novas amizades. Assim que chegarmos a Patrocínio, depois da recuperação dela, quero procurar um trabalho na cidade e oferecer uma estrutura melhor para as duas.”

Acolhimento

O Projeto Beija-Flor da Rede Feminina de Combate ao Câncer foi idealizado para realizar sonhos e desejos de pacientes do Hospital de Base. São histórias como a de Joscelino e sua família que são escolhidas a cada dois meses pelas voluntárias. A proposta funciona desde 2008 e já realizou mais de 100 sonhos.

Quer doar?


Para ajudar esse e outros projetos da Rede Feminina, que vive de doação e ajuda voluntária, entre em contato pelos telefones (61) 3364-5467 ou (61) 3315-1221, ou acesse o site www.redefemininadf.org.

(*) Fonte: Roberta Pinheiro /CB  - Foto: Minervino Junior/CB/DA Press

Nenhum comentário: